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terça-feira, 15 de novembro de 2011

Padre José de Anchieta (1534 - 1597)

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Nascido no ano de 1534 em Tenerife, Ilhas Canárias (arquipélago Espanhol). Filho de mãe judia, mudou-se para Coimbra, em Portugal, aos 14 anos a fim de receber sua formação intelectual longe dos domínios espanhóis em função da perseguição do Tribunal do Santo Ofício. Aos 17 anos ingressou na Companhia de Jesus, cuja principal missão era a difusão do cristianismo no então recém descoberto continente americano.

Temendo por sua saúde, seu superior enviou-o ao Brasil, por acreditar que os ares do novo continente seriam benignos para o padre. Ao chegar em terras brasileiras, foi acolhido pelo padre Manoel da Nóbrega, chefe da primeira missão jesuítica na América, que já se instalara em São Vicente. Anchieta veio ao Brasil na armada de Duarte Góis que trazia consigo Duarte da Costa (1553-1558), o segundo governador-geral do Brasil.
Os primeiros jesuítas que se instalaram, ainda durante o governo de Tomé de Sousa (1549-1553), foram responsáveis pela fundação do primeiro colégio estabelecido no Brasil, em Salvador. Mais tarde, em 1554, Anchieta participou da fundação do Colégio São Paulo, no Planalto de Piratininga, região onde atualmente se encontra a cidade de São Paulo.



Em 1563, José de Anchieta e Manuel da Nóbrega participaram do conflito conhecido como a Confederação dos Tamoios como mediadores da paz entre os portugueses e os índios tamoios que ameaçavam a segurança da região. Anchieta foi feito refém dos índios de Iperoig (região onde se encontra a cidade de Ubatuba) e lá permaneceu durante cinco meses. O episódio gerou o primeiro tratado de paz entre colonizadores e indígenas, graças às intervenções de Nóbrega e Anchieta e dos acordos entre os padres e os líderes indígenas e ficou conhecido como a Paz de Iperoig, evitando que os índios, enfurecidos, destruíssem as cidades e as vilas portuguesas.

Compôs o Poema à Virgem, poema de 4.172 versos, enquanto estava no cativeiro dos tamoios e, diz a lenda, que o havia escrito nas areias da praia e que, graças a sua memória excepcional, somente mais tarde teria transcrito o poema para o papel.


Tela de Benedito Calixto de Jesus (1853-1927) em que retrata Anchieta escrevendo seus poemas na areia

Em 1566, Anchieta é ordenado sacerdote e em 1569 funda o povoamento de Reritiba, localizado no estado do Espírito Santo. Nesse mesmo período, dirige, durante alguns anos, o colégio dos Jesuítas no Rio de Janeiro. Em 1577, Anchieta foi promovido a Provincial, maior cargo da Companhia de Jesus da época, sucedendo o padre Manuel da Nóbrega (falecido no ano de 1570), viajando pelo país e orientando as missões ao longo do território brasileiro.

Falece no ano de 1597 em Reritiba, cidade posteriormente renomeada de Anchieta. O padre ficou conhecido como “o apóstolo do Novo Mundo” por levar adiante a missão de evangelização dos gentios e pelos serviços prestados à Companhia de Jesus no continente americano.

Sua vida serviu de inspiração para que muitos artistas retratassem diversos episódios em forma de telas como, por exemplo, a missa rezada em ocasião da fundação do colégio São Paulo, a marcha realizada do litoral até a cidade de Vitória em decorrência de um naufrágio, entre outros. No ano de 1980, Anchieta foi beatificado pelo papa João Paulo II, pois, segundo investigação histórica conduzida pelo Vaticano, o padre operou o milagre da conversão de três indivíduos ao cristianismo de uma vez.



Obras

As principais obras do jesuíta estão divididas entre poemas, peças de teatro, sermões e, claro, na elaboração de uma gramática que facilitasse o ensino e o aprendizado da religião pelos indígenas. Seus poemas, carregados de subjetividade, mostram um Anchieta empenhado no louvor à religião católica, na busca pelo consolo das adversidades da vida que é encontrado apenas por meio da entrega e do amor divino e, claro, na vida dos santos.

Suas peças de teatro (autos), de cunho pedagógico, são voltadas para a catequização dos indígenas, escritos ora em português, ora em tupi, transformando o imaginário e os costumes daquelas sociedades “pagãs” em entidades “do Mal”, contrárias às imagens do cristianismo, que representam “o Bem”, criando dois pólos de oposição entre os dois mundos. Na Festa de São Lourenço é considerado seu auto mais importante, pois, embora não haja uma unidade narrativa nos quatro atos que o compõe, há a descrição de cenas da vida nativa e demais aspectos da vida dos indígenas.

Suas principais publicações são O De Gestis Mendi de Saa, impresso em 1563, poema épico em homenagem ao governador Mem de Sá que chefiou os primeiros levantes contra os franceses que invadiram as colônias portuguesas. É considerado o primeiro poema épico da América e anterior ao “Os Lusíadas” de Luís de Camões. No entanto, críticos e antropólogos contemporâneos chamam a atenção para o aspecto da violência contida no poema que, segundo a visão dos jesuítas, legitimaria a conquista, a subordinação e o extermínio dos indígenas em face de um objetivo “maior”, a evangelização, assemelhando-se às cruzadas medievais.

Além disso, o imaginário pagão dos indígenas é considerado diabólico e seus rituais, principalmente o antropofágico, são vistos como algo bestial e animalesco, desprovido de significação cultural.

Logo, o texto mostra, acima de tudo, que a vinda dos jesuítas, embora com objetivos diferentes dos conquistadores de terras, também se deu de maneira violenta, de um povo sobre outro e que a instalação dos redutos missionários não foi tão pacífica como se supunha, expondo as chagas da história brasileira; e A arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil, impresso em 1595, constitui-se no primeiro registro dos fundamentos da língua tupi.



Bibliografia:
BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 2006.
GINZBURG, Jaime. A origem como inferno (a representação da guerra na poesia de José de Anchieta). In: BERND, Zilá. CAMPOS, Maria do Carmo (orgs). Literatura e americanidade. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 1995.

Quinhentismo

Quinhentismo é a denominação genérica de todas as manifestações literárias ocorridas no Brasil durante o século XVI, no momento em que a cultura europeia foi introduzida no país. Note que, nesse período, ainda não se trata de literatura genuinamente brasileira, a qual revele visão do homem brasileiro. Trata-se de uma literatura ocorrida no Brasil, ligada ao Brasil, mas que denota a visão, as ambições e as intenções do homem europeu mercantilista em busca de novas terras e riquezas. As manifestações ocorridas se prenderam, basicamente, à descrição da terra e do índio, ou a textos escritos pelos viajantes, jesuítas e missionários que aqui estiveram.

Literatura Informativa

A Carta de Caminha inaugura o que se convencionou chamar de Literatura Informativa sobre o Brasil. Este tipo de literatura, também conhecido como literatura dos viajantes ou literatura dos cronistas, como consequência das Grandes Navegações, empenha-se em fazer um levantamento da “terra nova”, de sua floresta e fauna, de seus habitantes e costumes, que se apresentaram muito diferentes dos europeus. Daí ser uma literatura meramente descritiva e, como tal, sem grande valor literário. A principal característica da carta é a exaltação da terra, resultante do assombro do europeu diante do exotismo e da exuberância de um mundo tropical. Com relação à linguagem, o louvor à terra transparece no uso exagerado de adjetivos.


 

Original da Carta de Caminha

Para o leitor de hoje, a literatura informativa satisfaz a curiosidade a respeito do Brasil nos seus primeiros anos de vida, oferecendo o encanto das narrativas de viagem. Para os historiadores, os textos são fontes obrigatórias de pesquisa. Mais adiante, com o movimento modernista, esses textos foram retomados pelos escritores brasileiros, como Oswald de Andrade, como forma de denúncia da exploração a que o país sofrera desde então.

Veja os principais documentos que compõem a nossa literatura informativa:

1. Carta do descobrimento (Pero Vaz de Caminha): foi escrita no ano de 1500 e publicada pela primeira vez em 1817.
2. Tratado da terra do Brasil (Pero de Magalhães Gândavo): foi escrito por volta de 1570 e impresso pela primeira vez em 1826.
3. História da Província de Santa Cruz, a que vulgarmente chamamos Brasil (Pero de Magalhães Gândavo): foi editado em 1576.
4. Diálogo sobre a conversão dos gentios (Padre Manuel da Nóbrega): foi escrito em 1557 e impresso em 1880.
5. Tratado descritivo do Brasil (Gabriel Soares de Sousa): escrito em 1587 e impresso por volta de 1839.

Você conhece a Carta de Pero Vaz de Caminha? Leia a seguir alguns fragmentos.
 
 
 
Carta a el-Rei Dom Manuel sobre o achamento do Brasil

Senhor, posto que o capitão-mor desta vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a nova do achamento desta Vossa terra nova, que se ora nesta navegação achou, não deixarei de também dar disso minha conta. (...)
E assim seguimos nosso caminho, por este mar, de longo, até terça-feira d’ oitavas de Páscoa, que foram 21 dias d’Abril, que topamos alguns sinais de terra (...) E à quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves, a que chamam fura-buchos. Neste mesmo dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra, isto é, primeiramente d’um grande monte, mui alto e redondo, e d’outras serras mais baixas ao sul dele e de terra chã com grandes arvoredos, ao qual monte alto o capitão pôs o nome o Monte Pascoal e à terra A Terra de Vera Cruz. (...)
E dali houvemos vista d’homens, que andavam pela praia, de 7 ou 8, segundo os navios pequenos disseram, por chegaram primeiro. (...) A feição deles é serem pardos, maneira d'avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura, nem estimam nenhuma cousa cobrir nem mostrar suas vergonhas. E estão acerca disso com tanta inocência como têm em mostrar o rosto. (...)
Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos, compridos, pelas espáduas; e suas vergonhas tão altas e tão çarradinhas e tão limpas das cabeleiras que de as nós muito bem olharmos não tínhamos nenhuma vergonha. (...)
E uma daquelas moças era toda tinta, de fundo a cima, daquela tintura, a qual, certo, era tão bem feita e tão redonda e sua vergonha, que ela não tinha, tão graciosa, que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhes tais feições, fizera vergonha, por não terem a sua como ela. (...)
O capitão, quando eles vieram, estava assentado em uma cadeira e uma alcatifa aos pés por estrado, e bem vestido, com um colar d'ouro mui grande ao pescoço. (...) Um deles, porém, pôs olho no colar do capitão e começou d'acenar com a mão para a terra e despois para o colar, como que nos dizia que havia em terra ouro. E também viu um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e então para o castiçal, como que havia também prata. (...)
Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra em si é de muito bons ares frescos e temperados como os de Entre-Douro-e-Minho, porque neste tempo d'agora assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem! Porém, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar. (...)

capitão-mor: trata-se de Pedro Álvares Cabral.
conta: relato.
oitavas de Páscoa: semana que vai desde o domingo de Páscoa até o domingo seguinte.
horas de véspera: final da tarde.
chã: plana.
cousa: coisa.
vergonhas: órgãos sexais.
çarradinhas: alguns historiadores consideram "saradinhas", isto é, sem doenças, e outros consideram "cerradinhas", isto é, densas.
tinta: tingida.
alcatifa: tapete, que cobre ou se estende.
Entre-Douro-e-Minho: antiga província de Portugal.