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quarta-feira, 6 de março de 2013

A atemporalidade de Guernica (Pablo Picasso)

guernica                                               Guernica (1937) de Pablo Picasso

Por que Guernica é considerada como uma das mais importantes obras de arte do nosso século? Elaborar argumentos sobre esta obra é uma tarefa que nos leva a vários raciocínios. Podemos explanar através de três vertentes: a artística, a histórica e a social. Contudo, será penoso não uni-las, já que fazem parte de um único objeto de discussão. O grande mural de Picasso, que atualmente faz parte do acervo do Centro de Arte Reina Sofía em Madri, foi inspirado em um ataque aéreo contra civis.
O próprio nome que intitula a obra remete à pequena cidade espanhola Gernika-Lumo, capital tradicional da região basca, que sofreu um estúpido bombardeio num dia de mercado em 1937. Durou três horas e meia. Intenção do ataque: experimentar os efeitos combinados das bombas explosivas e das bombas incendiárias sobre a população civil. Dentro dessa atmosfera, nada mais natural do que a revolta impulsionar a criação do artista.
                                     Centro de Arte Reina Sofía em Madri, jan 2013
Artisticamente, Guernica é um trabalho fabuloso do artista plástico espanhol Pablo Picasso (1881-1973). A maneira como transpôs um acontecimento individual num fato universal é indubitavelmente o primor da síntese, emaranhado com a sua emoção pessoal deliberadamente exposta. Há um grau de indignação que, entretanto, não significa a dormência característica de um mero observador. Pelo contrário, o estabelecido é o horror – que é muito mais vigoroso.
Só que Picasso não exprime a crueldade por meio da simples representação do horrível; nos transmite este sentimento com mais força, porque recorre a um ritmo sacudido, a um traço incisivo, a anomalias de formas, a valores trabalhados com dureza. O horrível vai além das aparências, sai de dentro do lamento das figuras. Modela a expressão, como se Picasso vivenciasse a crueldade humana sofrida por cada uma delas, em suas diversas reações/sentimentos.
Ainda no âmbito das artes plásticas, existe um fator primordial que eleva esta obra ao patamar de importância no qual está: sua atemporalidade. Ela tem o frescor do recém pintado. Apesar dos sessenta e seis anos que possui, a essência de Guernica não sofreu desgastes. A capacidade de emocionarmos, identificarmos expressões e contextualizá-las, torna-se uma atitude contemporânea. E parte dessa possibilidade é viável graças à sinceridade do autor em retratar nuances da alma humana e seus suplícios.
Ao levarmos em conta a ocasião em que foi pintada 1937 (a Guerra Civil Espanhola tinha estourado em julho de 1936) e a fonte de inspiração de Guernica, a consideração de que seja um legado histórico é plausível.
Registro de uma época. Isso seria outra forma de desvelar sua carga documental. Em algumas biografias sobre Picasso, citam que o artista nunca se preocupou em pintar para os museus nem para a história. Contrariando o próprio idealizador de Guernica, a existência da obra propicia discussões (reflexões) não apenas sobre o passado, mas também sobre o presente e o futuro. E é isso que Guernica desempenha: desmembrar o que vivemos para tentarmos entender o que somos. Nada mais do que lembrar a História e percebermos a persistência daquela intolerância e sordidez dos homens num tempo real.
Por uma perspectiva empírica, pela qual Guernica se ergueu, mesmo Picasso não sendo vítima do bombardeio, mas pela forma de solidariedade possível à sua natureza (sua arte) de comungar com seus compatriotas, vislumbramos sua origem de autêntico documento. Foi a experiência em uma época, numa certa ocasião que floresceu em Guernica o espírito macro da criação do artista. A verdade de um trabalho artístico está dentro do criador. Picasso poderia fazê-la hoje numa alusão aos sofrimentos do homem contemporâneo e sua atual guerra; talvez, fosse a mesma Guernica. E portanto, possuir o mesmo valor. Assim, a pluralidade e extensão de leituras sobre Guernica a fazem ser uma das obras-primas capitais da nossa história da arte e da vida humana.
Segundo Charles Baudelaire, o natural é medonho. Em Guernica, infelizmente, constatamos que seu lado social associa-se também ao natural dos infortúnios do nosso cotidiano. Não são apenas as mazelas da guerra, porém do descaso do poder, da fome, do abandono de pessoas, etc. Sem desviar dessa questão social, o meio sutil (quase subjetivo) com o qual Picasso faz a sua denúncia, sem confrontar-se em particular com nenhuma facção política ou civil, é de elegância indescritível. Mas a ironia é mais inteligente e eficaz, já que aquela elegância formal disfarça indicar o culpado; enquanto sofremos um certo constrangimento, um lapso de mea culpa.
Termino esta argumentação com um trecho sobre a 2ª Guerra Mundial da escritora Marguerite Duras. A única resposta para esse crime é transformá-lo num crime de todos. Partilhá-lo. Assim como a idéia de igualdade, de fraternidade. Para suportá-lo, para tolerar a idéia, partilhar o crime. (…) Não acuso ninguém, nenhuma raça, nenhum povo, acuso o homem. (…) Mas, quando se trata de homens, de onde virá essa capacidade de ferir, de acostumar-se com isso, de fazê-lo como a um trabalho, um dever?”.
O mais vertiginoso é que esse crime é todos os crimes. Sinceramente, não sei se Guernica pode mudar de maneira prática algum fator comportamental, mas o intelecto é mexido. E se assimilarmos a obra como um ensurdecedor grito de dor – já é alguma coisa.

Fonte: *Publicado no Jornal do Commercio em 09 de abril de 2003.

segunda-feira, 19 de março de 2012

"Mulher em Frente ao Espelho", Picasso

Galeria Poesia em Si 
(Mulher em Frente ao Espelho- 1932- Pablo Picasso)

Em meio a perfeita combinação de cores, Picasso parece promover todo um erotismo subjacente revelado nas curvas e nas formas arredondadas da moça.


"Mulher em Frente ao Espelho"
(Pablo Picasso)

Uma obra artística, atemporal e muitíssimo interessante que envolve um aspecto muito apreciado pelos artistas plásticos: a temática do espelho. Dentre as obras que abordam tal assunto temos: “As meninas de Velásquez ” ; “Casal Arnolfini”, de Jan Van Eyck, cujo espelho de um rosário situado na parede, ao fundo da imagem do casal, parece revelar um outro enigma interesantíssimo para ser analisado.

Na literatura tal temática é verificado em "Mirror", de Sylvia Plthy; o conto “ O Espelho”, de Machado de Assis, em que a alma humana é impingida por um caráter, muitas das vezes, alienador na tentativa de viver longe, fora de si. “ Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro...

A alma exterior pode ser um espírito, um fluído, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação”. ( Machado de Assis) Nesta obra, uma grande ambigüidade é tratada e analisada pelo autor concernente à alma do homem em poder ser ela própria ou assumir a máscara alienante do "outro".

Ao que tange a imagem feminina em "Mulher em frente ao Espelho", esta obra nos permite, dentre outras possibilidades, interpretar a imensidão de sensibilidade da mulher do nosso século em lidar com as adversidades da vida através de um reinventar constante de seu coração, de seus espelhos da alma. Espelhos que ela guarda somente para si e que revelam ânsias, frustrações, angústias e medos que não condiz com sua alma sensível, estando ela em plena contradição com o sistema sufocante a qual se encontra a mulher. Para tanto, muitas das vezes, utiliza-se de máscaras para vivenciar dentro de si vidas alheias numa só. É forma desumana e condição de sobrevivência em pleno mundo moderno, em pleno mundo cão. Esta é a sua crença. Esta é a sua lei.

domingo, 10 de abril de 2011

Cubismo

O pontapé inicial da revolução artística denominada Cubismo foi o quadro "Les Demoiselles d’Avignon", que Pablo Picasso pintou em 1907, com influências de máscaras africanas.
A tela retrata cinco prostitutas nuas em um bordel.





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Pablo Picasso. Les Demoiselles d´Avignon, 1907. Óleo sobre tela. Museu de Arte Moderna, Nova York, EUA

O movimento cubista surgiu como um dos principais pontos de mutação da arte do século XX, e liberou a arte ao estabelecer, nas palavras do pintor cubista Fernand Léger, que “a arte consiste em inventar, e não em copiar”.


Seu precursor foi Cézanne, que se tornou o pai da "arte moderna", ao sacrificar a correção convencional da perspectiva linear e aérea em busca de um arranjo ordenado na tela, que os mestres clássicos haviam conhecido. Cézanne usava formas geométricas quando pintava e afirmava ver na natureza "o quadrado, a esfera e o cone". Seus desenhos rompiam com a apresentação tradicional de um objeto calcada na perspectiva. Mostravam a figura em mais de uma face, distorcendo-as sutilmente.


<!--[if !vml]-->Paul Cézanne, Banhistas. 1899-1906. Óleo sobre tela, 208 x 249 cm. Museu de Arte da Filadélfia

O cubismo rompeu com o passado ao instaurar na arte uma nova concepção de espaço plástico no achatamento do espaço pela superposição dos planos do objeto, com este ganhando uma nova feição figurativa. Segundo o escritor mexicano Octavio Paz, a modernidade é marcada pela lógica da ruptura e foi esta lógica que levou os cubistas a romperem com as antigas formas de representação artística. Escandalizou o mundo com sua imposição na arte através de Picasso – com a ajuda de Braque – e liderou as forças de inovação artística, de 1908 a 1914.

Foto de Picasso
O Cubismo divide-se em três importantes fases: cezanniana ou primitiva, analítica e sintética.
A primeira fase volta ao problema da modulação em Cézanne – coordenação sensitiva dos planos constituintes da representação formal – e abandona a cor como forma de resolver a modulação, apoiando-se na luz e sombra, dando um efeito escultórico às paisagens, retratos e naturezas-mortas dessa fase.


A fase analítica analisava as formas dos objetos, partindo-os em fragmentos e espalhando-os pela tela. Em uma gama quase monocromática, usando apenas marrom, verde, e mais tarde cinza, a fim de analisar a forma sem a distração das cores. Decompondo a obra em partes, o artista registra todos os seus elementos em planos sucessivos e superpostos, procurando a visão total da figura, examinando-a em todos os ângulos no mesmo instante, através da fragmentação dela.
Picasso. Retrato de Ambroise Vollard.

Pablo Picasso, O Poeta. 1910. Óleo sobre tela.
Foi no cubismo sintético que a colagem foi vista como novo meio de linguagem artística e/ou implementação da criação artística. Os primeiros artistas a utilizarem essa técnica foram Pablo Picasso e Georges Braque, por volta de 1912. Braque colava pedaços de papel retangulares em uma folha de papelão e ali colocava esboços de pintura. Depois de algum tempo, vários deles começaram a misturar imagens impressas de todo o tipo, desde rótulos até gravuras. Na fase sintética pretendia-se dar uma imagem sintética dos objetos, das suas formas essenciais e da sua matéria. De 1912 a 1914, o cubismo sintético ou de colagem – “papier collé” - constrói quadros com jornais, tecidos e objetos, além de tinta.
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Reagindo à excessiva fragmentação dos objetos e à destruição de sua estrutura, basicamente, essa tendência procurou tornar as figuras novamente reconhecíveis. Foi chamada de Colagem porque introduz letras, palavras, números, pedaços de madeira, vidro, metal e até objetos inteiros nas pinturas, as assemblages. Essa inovação pode ser explicada pela intenção dos artistas em criar efeitos plásticos e de ultrapassar os limites das sensações visuais que a pintura sugere, despertando também no observador as sensações táteis.



Veja um vídeo da GUERNICA, um dos quadros mais famosos de Picasso, em 3D:



Foto de Picasso



Animacão sobre a Guernica, com quadros de Salvador Dali, Van GOgh e Escher!