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terça-feira, 15 de novembro de 2011

Padre Antônio Vieira - O Riso da Beleza e as Lágrimas da Arte

O Barroco: século XVII

CONTEXTO HISTÓRICO
- Contrarreforma;
- Renascimento.

CARACTERÍSTICAS
- Conflito entre corpo e alma;
- Passagem do tempo;
- Cultismo e conceptismo;
- Figuras de linguagem.

PRINCIPAIS AUTORES
- Bento Teixeira;
- Gregório de Matos Guerra;
- Padre Antonio Vieira.


Responsável pelo desenvolvimento da prosa no período do barroco, Padre Antônio Vieira é conhecido por seus sermões polêmicos em que critica, entre outras coisas, o despotismo dos colonos portugueses, a influencia negativa que o Protestantismo exerceria na colônia, os pregadores que não cumpriam com seu ofício de catequizar e evangelizar (seus adversários católicos) e a própria Inquisição.

Além disso, defendia os índios e sua evangelização, condenando os horrores vivenciados por eles nas mãos de colonos e os cristãos-novos (judeus convertidos ao Catolicismo) que aqui se instalaram. Famoso por seus sermões, padre Antônio Vieira também se dedicou a escrever cartas e profecias.

Mito do Sebastianismo

Com o desenvolvimento do mercado marítimo, Portugal vivenciou um período de ascenção e grandeza. Porém, com o declínio do comércio no Oriente, Portugal viveu uma crise econômica e dinástica. Como consequência, o então rei de Portugal D. Sebastião resolve colocar em prática seu plano de organizar uma cruzada em Marrocos e levando à batalha de Alcacer-Quibir em 1578.

A derrota na batalha e seu dedesaparecimento (provável morte em batalha), gerou especulações acerca de seus paradeiro. A partir de então, originou-se a crença de que o rei retornaria para transformar Portugal novamente em uma grande potência econômica. Padre Antônio Vieira era um dos que acreditavam no Sebastianismo e, mais adiante, Antônio Conselheiro anunciava o retorno de D. Sebastião nos episódios da Guerra de Canudos.

Os sermões

Escreveu cerca de duzentos sermões em estilo conceptista, isto é, que privilegia a retórica e o encadeamento lógico de ideias e conceitos. Estão formalmente divididos em três partes:

Intróito ou Exórdio: a apresentação, introdução do assunto.
Desenvolvimento ou argumento: defesa de uma ideia com base na argumentação.
Peroração: parte final, conclusão.

Seus sermões mais mais famosos são:

Sermão da Sexágésima (1655):

O sermão, dividido em dez partes, é conhecido por tratar da arte de pregar. Nele, Padre Antônio Vieira condena aqueles que apenas pregam a palavra de Deus de maneira vazia. Para ele, a palavra de Deus era como uma semente, que deveria ser semeada pelo pregador. Por fim, o padre chega à conclusão de que, se a palavra de Deus não dá frutos no plano terrreno a culpa é única e exclusivamente dos pregadores que não cumprem direito a sua função. Leia um trecho do sermão:

Ecce exiit qui seminat, seminare. Diz Cristo que "saiu o pregador evangélico a semear" a palavra divina. Bem parece este texto dos livros de Deus ão só faz menção do semear, mas também faz caso do sair: Exiit, porque no dia da messe hão-nos de medir a semeadura e hão-nos de contar os passos. (...) Entre os semeadores do Evangelho há uns que saem a semear, há outros que semeiam sem sair. Os que saem a semear são os que vão pregar à Índia, à China, ao Japão; os que semeiam sem sair, são os que se contentam com pregar na Pátria. Todos terão sua razão, mas tudo tem sua conta. Aos que têm a seara em casa, pagar-lhes-ão a semeadura; aos que vão buscar a seara tão longe, hão-lhes de medir a semeadura e hão-lhes de contar os passos. Ah Dia do Juízo! Ah pregadores! Os de cá, achar-vos-eis com mais paço; os de lá, com mais passos: Exiit seminare. (...) Ora, suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende destes três concursos: de Deus, do pregador e do ouvinte, por qual deles devemos entender a falta? Por parte do ouvinte, ou por parte do pregador, ou por parte de Deus? (...)

Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda (1640):

Neste sermão, o padre incita os seguidores a reagir contra as invasões Holandesas, alegando que a presença dos protestantes na colônia resultaria em uma série de depredações à colônia. Leia um trecho do sermão:

Se acaso for assim — o que vós não permitais — e está determinado em vosso secreto juízo, que entrem os hereges na Bahia, o que só vos represento humildemente, e muito deveras, é que, antes da execução da sentença, repareis bem, Senhor, no que vos pode suceder depois, e que o consulteis com vosso coração enquanto é tempo, porque melhor será arrepender agora, que quando o mal passado não tenha remédio. Bem estais na intenção e alusão com que digo isto, e na razão, fundada em vós mesmo, que tenho para o dizer. Também antes do dilúvio estáveis vós mui colérico e irado contra os homens, e por mais que Noé orava em todos aqueles cem anos, nunca houve remédio para que se aplacasse vossa ira. Romperam-se enfim as cataratas do céu, cresceu o mar até os cumes dos montes, alagou-se o mundo todo: já estaria satisfeita vossa justiça, senão quando ao terceiro dia começaram a boiar os corpos mortos, e a surgir e aparecer em multidão infinita aquelas figuras pálidas, e então se representou sobre as ondas a mais triste e funesta tragédia que nunca viram os anjos, que homens que a vissem, não os havia.

Sermão de Santo Antônio (1654):

Também conhecido como "O Sermão dos Peixes", pois nele o padre usa a imagem dos peixes como símbolo para fazer uma crítica aos vícios dos colonos portugueses que se aproveitavam da condição dos índios para escravizá-los e sujeitá-los ao seu poder. Leia um trecho do sermão:
Vós, diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? (...) Enfim, que havemos de pregar hoje aos peixes? Nunca pior auditório. Ao menos têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não falam. Uma só cousa pudera desconsolar o Pregador, que é serem gente os peixes que se não há-de converter. Mas esta dor é tão ordinária, que já pelo costume quase se não sente (...) Suposto isto, para que procedamos com clareza, dividirei, peixes, o vosso sermão em dois pontos: no primeiro louvar-vos-ei as vossas atitudes, no segundo repreender-vos-ei os vossos vícios. (...)  


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Vieira visitou os salões reais. Viajou pelos locais mais afastados do Brasil. Instalou-se no Maranhão. Estendeu a missão jesuíta. Aprofundou a sua relação com os índios.
Era conhecido pelos índios como Paiaçu (grande padre).

Constituiu-se numa espécie de apóstolo da palavra. O termo apóstolus do grego significa “mensageiro”, “enviado”, “embaixador”, “ministro”, “caminhante”. Foi o próprio Cristo quem chamou os seus discípulos de apóstolos. Eles seriam os pregoeiros das boas novas.
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Vieira é o eminente “embaixador” da Palavra, que leva em seus lábios a certeza da equidade.
Para ele: Subir ao púpito e não dizer a verdade era contra o ofício.
Por isso, todas as vezes que se colocava de pé com a missão de proferir o Evangelho, era invadido pelo calor do Espírito Divino.
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Pregava com tamanha beleza, erudição; com uma inspiração tão irradiada, que os salões das igrejas ficavam pequenos para a quantidade de pessoas que iam ouvi-lo.
Esse poder de Vieira levou o poeta Fernando Pessoa a dizer que ‘se não houvesse mais ninguém para falar a língua portuguesa, mas se em compensação ficassem os sermões de Vieira, a língua lusa jamais morreria’.
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Em suma: Vieira consegue reunir em seus sermões o que de mais belo há na língua portuguesa. Ele soube utilizá-la como ninguém. Extraiu dela todo o encanto; os vernáculos harmônicos e dissonantes; a versatilidade e a flexibilidade dos termos necessários. Proferiu com tamanha graça a língua de Camões que ler os seus sermões após tanto tempo causa-nos uma impressão singular.
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Neste ano de 2008 são completados quatro séculos do seu nascimento.
Ouvi poucos falarem desse acontecimento. Até mesmo os estudantes de Letras não atentaram para o fato de que no dia 6 de fevereiro de 1608, nascia, em Lisboa, Antônio Vieira, estadista, teólogo, missionário, padre – e por que não dizer filósofo?
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A homenagem que vi aconteceu na Câmara dos Deputados da República.
Ouvi José Sarney solitariamente proferir um discurso com rasgos de uma erudição afetada, tentar lançar luzes sobre as trevas da memória opaca da nação. A pouca memória do país para com os seus ilustres personagens históricos não permitiu que rendesse a ele, Vieira, homenagens dignas, do mais alto jaez. Lamentavelmente a memória é suprimida, a História é apagada e os grandes homens de espíritos livres borrados e negligenciados.
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Viveu 91 anos (morreu no dia 18 de julho de 1697).
Muito tempo para a expectativa de vida da época. Todavia, todo este tempo foi dedicado em sua integralidade à justiça e à defesa dos direitos humanos – especialmente dos índios.
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Não poderia deixar de finalizar sem mencionar Vieira num dos sermões mais belos e altivos que já foram pregados – O Pranto e o Riso ou as Lágrimas de Heráclito defendidas em Roma pelo padre Antônio Vieira contra o Riso de Demócrito.
Este sermão foi proferido no Palácio da rainha Cristina da Suécia, no ano de 1674:
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Quem verdadeiramente conhece o mundo, precisamente há de chorar; e quem ri, ou não chora, não o conhece”.
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É pertinente dizer que a vida de Vieira foi bela por que riso; e foi arte por que lágrimas. Ele conhecia o mundo e a alma humana como ninguém."
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Carlos Antônio Maximino de Albuquerque (Brasil).
(Em: "O Ser Carlino", Nov-2008)
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Respeita-se a grafia brasileira.

Cartas Chilenas, de Tomás Antônio Gonzaga


Cartas Chilenas é um conjunto de poemas, escritos em versos decassílabos e brancos, com uma metrificação parecida com a da epopéia, e circularam anonimamente em Vila Rica, entre 1787 e 1788, seus versos assumem um tom satírico.

É uma obra satírica, constituindo poema truncado e inacabado (13 cartas), na qual um morador de Vila Rica ataca a corrupção do Governador Luís da Cunha Menezes. Aponta as irregularidades de seu governo, configurando o ambiente de Vila Rica ao tempo da preparação política da Inconfidência Mineira. Em julho deste ano de 1878, Cunha Menezes deixaria o governo de Minas, em favor do Visconde de Barbacena.

Onde se deveria ler Portugal, Lisboa, Coimbra, Minas e Vila Rica, lê-se Espanha, Madrid, Salamanca, Chile e Santiago. Os nomes aparecem quase sempre deformados: Menezes é Minésio. Há apelidos e topônimos inalterados, como: Macedo, a ermida do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, a igreja do Pilar. O autor se dá o nome de Critilo e chama o destinatário de Doroteu. Finalmente, os fatos aludidos são facilmente identificados pelos leitores contemporâneos.

A matéria é toda referente à tirania e ao abuso de poder do Governador Fanfarrão Minésio, versando a sua falta de decoro, venalidade, prepotência e, sobretudo, desrespeito à lei. Afirmam alguns que o poema circulava largamente em Vila Rica em cópias manuscritas.

Critilo (Tomás Antônio Gonzaga) aplica-se de tal modo na sátira, que a beleza mal o preocupa. Os versos brancos concentram-se no ataque. Sente-se um poeta capaz de escrever no tom familiar que caracteriza o realismo dos neoclássicos, com certa inclinação para a pintura da vida doméstica.




 Tomás Antônio Gonzaga


Entretanto, não se nota nas Cartas nenhuma rebeldia contra os alicerces do sistema colonial, nem mesmo uma revolta contra o colonizador; apenas se critica a má administração do governador Cunha Menezes. Seu significado político, todavia, permanece. Literariamente, é a obra satírica mais importante do século XVIII brasileiro e continua sendo o índice de uma época.

Sendo anônimo o poema e tendo permanecido inédito até 1845, houve dúvida quanto à sua autoria, embora a tradição mais antiga apontasse Gonzaga sem hesitação. Falou-se depois em Cláudio, em Alvarenga Peixoto, em colaboração etc. Estudos empreendidos neste século, culminando pelos de Rodrigues Lapa, vieram dar prati­camente a certeza da atribuição a Gonzaga.

É tida como uma das mais curiosas sátiras de todos os tempos em Literatura Brasileira (junto com Antônio Chimango). Quem assina essas cartas é um certo Critilo, que escreve a um amigo, Doroteu. O contexto também era diverso, já que o clima de opressão e a tensão política deveriam se asilar no apócrifo.

As Cartas têm em Cunha Menezes (no texto, batizado com o singelo nome de Fanfarrão Minésio) o seu protagonista. Além do viés satírico, a obra constitui um interessante quadro dos costumes daquela época e um registro precioso do que era a corrupção no Brasil já desde os tempos da Colônia. Critilo, por sua vez, escreve do Chile.

Carta 1ª (fragmentos)

Não cuides, Doroteu, que vou contar-te

por verdadeira história uma novela

da classe das patranhas, que nos contam

verbosos navegantes, que já deram

ao globo deste mundo volta inteira.

Uma velha madrasta me persiga,

uma mulher zelosa me atormente

e tenha um bando de gatunos filhos,

que um chavo não me deixem, se este chefe

não fez ainda mais do que eu refiro.

................................................................................ 

Tem pesado semblante, a cor é baça,

o corpo de estatura um tanto esbelta,

feições compridas e olhadura feia;

tem grossas sobrancelhas, testa curta,

nariz direito e grande, fala pouco

em rouco, baixo som de mau falsete;

sem ser velho, já tem cabelo ruço,

e cobre este defeito e fria calva

à força de polvilho que lhe deita.

Ainda me parece que o estou vendo

no gordo rocinante escarranchado,

as longas calças pelo embigo atadas,

amarelo colete, e sobre tudo

vestida uma vermelha e justa farda.



A oitava carta denuncia que Meneses usava em benefício próprio o sistema de contratos - concessão que se fazia, trienalmente, a um particular para que ele efetuasse a cobrança dos impostos em nome da Coroa. Teoricamente, os contratos deveriam ser disputados em concorrências públicas, mas, como se vê, na Vila Rica do final do século XVIII, os governantes corruptos já conheciam os caminhos das pedras para driblar a lei, roubar os cofres públicos e encher as burras de dinheiro. Alguma semelhança com o nosso tempo?

Preso em 1789, por participar da Inconfidência Mineira, Gonzaga foi condenado a dez anos de degredo em Moçambique, aonde veio a falecer em 1809.


(...)
Pretende, Doroteu, o nosso chefe
Mostrar um grande zelo nas cobranças
Do imenso cabedal que todo o povo,
Aos cofres do monarca, está devendo.
Envia bons soldados às comarcas,
E manda-lhe que cobrem, ou que metam,
A quantos não pagarem, nas cadeias.
Não quero, Doroteu, lembrar-me agora
Das leis do nosso augusto; estou cansado
De confrontar os fatos deste chefe
Com as disposições do são direito;
Por isso pintarei, prezado amigo,
Somente a confusão e a grã desordem
Em que, a todos, nos pôs tão nova ideia.


Entraram, nas comarcas, os soldados,
E entraram a gemer os tristes povos.
Uns tiram os brinquinhos das orelhas
Das filhas e mulheres; outros vendem
As escravas, já velhas, que os criaram,
Por menos duas partes do seu preço.
Aquele que não tem cativo, ou jóia,
Satisfaz com papéis, e o soldadinho
Estas dívidas cobra, mais violento
Do que cobra a justiça uma parcela
Que tem executivo aparelhado,
Por sábia ordenação do nosso reino.
Por mais que o devedor exclama e grita
Que os créditos são falsos, ou que foram
Há muitos anos pagos, o ministro
Da severa cobrança a nada atende;
Despeza estes embargos, bem que o triste
Proteste de os provar incontinenti.

Não se recebem só, prezado amigo,
Os créditos alheios, para embolso
Das dividas fiscais. O soldadinho
Descobre um ramo, aqui, de bom comercio:
Aquele que não quer propor demandas
Promete-lhe a metade, ou mais, ainda,
Das somas que lhe entrega, e ele as cobra
Fingindo que as tomou em pagamento
Das dividas do rei. Ainda passa
A mais esta desordem: faz penhoras
E manda arrematar, ao pé da igreja,
As casas, os cativos, mais as roças.

Agora, Fanfarrão, agora falo
Contigo, e só contigo. Por que causa
Ordenas que se faça uma cobrança
Tão rápida e tão forte contra aqueles
Que ao erário só devem tênues somas?
Não tens contratadores, que ao rei devem,
De mil cruzados centos e mais centos?
Uma só quinta parte, que estes dessem,
Não matava, do erário, o grande empenho?
O pobre, porque é pobre, pague tudo,
E o rico, porque é rico, vai pagando
Sem soldados à porta, com sossego!
Não era menos torpe, e mais prudente
Que os devedores todos se igualassem?
Que, sem haver respeito ao pobre ou rico,
Metessem, no erário, um tanto certo,
À proporção das somas que devessem?
Indigno, indigno chefe! Tu não buscas
O público interesse. Tu só queres
Mostrar ao sábio augusto um falso zelo,
Poupando, ao mesmo tempo, os devedores,
Os grossos devedores, que repartem
Contigo os cabedais, que são do reino.

Talvez, meu Doroteu, talvez que entendas
Que o nosso Fanfarrão estima e preza
Os rendeiros que devem, por sistema:
Só para ver se os ricos desta terra,
A força de favores animados,
Se esforçam a lançar nas régias rendas.
Amigo Doroteu, o nosso chefe,
Se faz alguma coisa, é só movido
Da loucura, ou do sórdido interesse.




  

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

MARÍLIA DE DIRCEU - resenha crítica


É a lírica amorosa mais popular da literatura de língua portuguesa. Segundo o autor do prefácio da obra (Lisboa - 1957), Rodrigues Lapa, não é a persistência dos elementos tradicionais da poesia, mais ou menos pessoalmente elaborados, que nos dão definitivamente o seu estilo. Este consiste sobretudo nas novidades sentimentais e concepcionais que trouxe para uma literatura, derrancada no esforço de remoer sem cessar a antiguidade.

Um amor sincero, na idade em que o homem sente fugir-lhe o ardor da mocidade, e uma prisão injusta e brutal - foram estas duas experiências que fizeram desferir à lira de Dirceu acentos novos. Estamos ainda convencidos de que o clima americano, mais arejado e mais forte, contribuiu poderosamente para a revelação desse estilo, em que se sentem já nitidamente os primeiros rebates do romantismo e a impressão iniludível das idéias do tempo."

Dividido em liras que a partir da publicação do poema em livro, em 1792, foram declamadas, musicadas e cantadas em serestas e saraus pelo Brasil afora. Referindo-se à lira III da parte III, Manuel Bandeira escreveu : "Nessa lira esqueceu o Poeta a paisagem e a vida européia, os pastores, os vinhos, o azeite e as brancas ovelhinhas, esqueceu o travesso deus Cupido, e a sua poesia reflete com formosura a natureza e o ambiente social brasileiro, expressos nos termos da terra com um fino gosto que não tiveram seus precursores".

Existem três fatores básicos que contribuíram para a individualidade poética de Gonzaga: o romance com a menina Maria Dorotéia; a prisão injusta e brutal, como inconfidente; e a magia da natureza e do clima tropical.

A obra se divide em duas partes (há uma terceira, cuja autenticidade é contestada por alguns críticos):

Na 1ª parte estão os poemas escritos na época anterior à prisão do autor. Nela predominam as composições convencionais, as características arcádicas: o pastor Dirceu celebra a beleza de Marília em pequenas odes anacreônticas. Em algumas liras, entretanto, as convenções mal disfarçam a confissão amorosa do amor: a ansiedade de um quarentão apaixonado por uma adolescente; a necessidade de mostrar que não é um qualquer e que merece sua amada; os projetos de uma sossegada vida futura, rodeado de filhos e bem cuidado por suas mulher etc. Nesta 1ª parte das liras o autor denota preferência pelo verso leve, tratado com facilidade.

Já a 2ª parte (e a terceira, se autêntica), foi escrita na prisão da ilha das Cobras, e os poemas exprimem a solidão de Dirceu, saudoso de Marília. Encontramos aí a melhor poesia de Gonzaga. Entende-se aqui que as características pré-românticas se fazem sentir mais agudamente. O sentimento da injustiça, da solidão, da saudade de Marília, o temor do futuro e a perspectiva da morte rompem constantemente o equilíbrio clássico.

As convenções, embora ainda presentes, não sustentam o equilíbrio neoclássico. O tom confessional e o pessimismo prenunciam o emocionalismo romântico. Nesta 2ª parte das liras, há o emprego do verbo no passado: o poeta vive de lembranças e recordações passadas.

Em Marília de Dirceu, há a refinada simplicidade neoclássica: uma dicção aparentemente direta e espontânea, cheia de imagens graciosas e de alegorias mitológicas; um ritmo agradável, suavizado pelos versos curtos, pela alternância de decassílabos e hexassílabos, pelo uso do refrão e dos versos brancos.

A estrutura métrica das liras são a versificação pouco variada e, a par dos versos de quatro sílabas, melhor ditos células métricas, vêm a redondilha menor, com acentuação na 2ª e 5ª sílabas; o heróico quebrado, sempre em combinação; a redondilha maior; o decassílabo.

Temas e formas

I

1 Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,

que viva de guardar alheio gado,

de tosco trato, de expressões grosseiro,

4 dos frios gelos e dos sóis queimado.

5  Tenho próprio casal e nele assisto;

6 dá-me vinho, legume, fruta, azeite;

7  das brancas ovelhinhas tiro o leite

8 e mais as finas lãs, de que me visto.

9 Graças, Mar flua bela,

10  graças à minha estrela!

11 Eu vi o meu semblante numa fonte:

12    dos anos inda não está cortado;

13    Os pastores que habitam este monte

14 respeitam o poder do meu cajado.

15    Com tal destreza toco a sanfoninha,

16    que inveja até me tem o próprio Alceste:

17    ao som dela concerto a voz celeste,

18    nem canto letra que não seja minha.

19 graças, Marília bela,

20   graças à minha estrela!

Uma leitura atenta do fragmento transcrito permite-nos identificar algumas constantes das Liras:

1. Pastoralismo bucolismo: na exaltação da vida pastoril, campestre; no entendimento de que a felicidade e a beleza decorrem da vida no campo. É da convenção arcádica o poeta identificar-se artisticamente como pastor e identificar sua musa como pastora. Observe estas palavras: “vaqueiro", “gado”, “ovelhinhas”, “fonte", “pastores”, “monte”, “cajado”.

2. Otimismo — narcisismo: no estribilho, o poeta manifesta-se satisfeito com o próprio destino: “Graças, Marília bela, / Graças à minha estrela”. É evidente o propósito de auto-valorização (narcisismo): nos versos 11 e 12; na afirmação da juventude: nos versos 13 e 14; na alusão à virilidade; e na exaltação da sensibilidade artística: nos versos 15 e 16.

3. Ideal burguês de vida: na afirmação da condição de proprietário, no orgulho pela posse da terra (versos de 5 a 8), apóia-se o poeta para expressar a consciência de superioridade sobre “o vaqueiro que viva de guardar alheio gado”, que o poeta deprecia (versos 3 e 4). Observa-se esse ideal também no verso 19:

Que prazer não terão os pais ao verem

Com as mães um dos filhos abraçados;

Jogar outros a luta, outros correrem

Nos cordeiros montados!

Que estado de ventura!

4. Simplicidade: observe o predomínio da ordem direta da frase e a clareza da expressão, sem muitas figuras de linguagem, próxima do ritmo da prosa.

II

A minha amada

é mais formosa

que branco lírio,

dobrada rosa,

que o cinamomo,

quando matiza

co’a folha a flor:

Vênus não chega

ao meu amor.

Vasta campina,

de trigo cheia,

quando na sesta

co vento ondeia,

ao seu cabelo,

quando flutua,

não é igual.

Tem a cor negra,

mas quanto val!

(...)

III

(...)

Aqui um regato

corria, sereno,

por margens cobertas

de flores e feno;

à esquerda se erguia

um bosque fechado;

e o tempo apressado,

que nada respeita,

já tudo mudou.

São estes os sítios?

São estes; mas eu

o mesmo não sou.

Marília, tu chamas?

Espera, que eu vou.

5. Os dois textos revelam a vertente mais convencional da poesia de Gonzaga: a aproximação com o estilo rococó, marcado pela graça, leveza e frivolidade, pelos idílios campestres, pela natureza delicada e aprazível (locus amoenus). Observe os metros curtos, melódicos que emolduram a suavidade do quadro descrito, como os movimentos sutis de um minueto, dançado na Corte de Luís XV, na época de ouro do Rococó.

6. Mas, em alguns momentos, avulta o realismo descritivo, captando a rusticidade da paisagem e da vida da Colônia. Exemplo marcante é o fragmento que segue. Observe as referências à mineração e à agricultura:

IV

Tu não verás, Marília, cem cativos

tirarem o cascalho e a rica terra,

ou dos cercos dos rios caudalosos,

ou da minada serra.

Não verás separar ao hábil negro

do pesado esmeril a grossa areia,

e já brilharem os granetes de oiro

no fundo da batéia.

Não verás derrubar os virgens matos,

queimar as capoeiras inda novas,

servir de adubo à terra a fértil cinza,

lançar os grãos nas covas.

Não verás enrolar negros pacotes

das secas folhas do cheiroso fumo;

nem espremer entre as dentadas rodas

da doce cana o sumo.

(...)

  V

Com os anos, Marília, o gosto falta,

e se entorpece o corpo já cansado:

triste, o velho cordeiro está deitado,

e o leve filho, sempre alegre, salta.

A mesma formosura

é dote que só goza a mocidade:

rugam-se as faces, o cabelo alveja,

mal chega a longa idade.

Que havemos de esperar Marília bela?

que vão passando os florescentes dias?

As glórias que vêm tarde, já vêm frias,

e pode, enfim, mudar-se a nossa estrela.

Ah! não, minha Marília,

aproveite-se o tempo, antes que faça

o estrago de roubar ao corpo as forças,

e ao semblante a graça!

7. O texto V, dos mais belos das liras, manifesta a atitude clássica, o carpe diem (= “aproveita o dia”). Na primeira estrofe, o poeta expressa a consciência da fugacidade do tempo. Na estrofe seguinte, propõe à Marília a fruição dos prazeres da vida, antes que o tempo fizesse o estrago de “roubar ao corpo [do poeta] as forças, e ao semblante [de Marília], a graça.

8. Nas liras escritas no cárcere, predomina o lirismo lamuriento, pré-romântico, mas submetido ainda à disciplina e sobriedade neoclássicas. Nas últimas liras, nota-se que, ainda quando nem os céus acudiam o poeta em suas atribulações, a expressão de suas dores é contida:

   VI

Porém se os justos céus, por fins ocultos,

em tão tirano mal me não socorrem,

verás então que os sábios,

bem como vivem, morrem.

Eu tenho um coração maior que o mundo,

tu, formosa Marília, bem o sabes:

um coração, e basta,

onde tu mesma cabes.

9. As contradições também ocorrem: ora Dirceu se diz pastor, ora se diz magistrado; Marília é muitas vezes pretexto para o exercício poético de Gonzaga e seus traços variam:

Aqui Marília tem cabelos pretos:

VII

(...)

Os seus compridos cabelos,

que sobre as costas ondeiam,

são que os de ApoIo mais belos,

mas de loura cor não são.

Têm a cor da negra noite,

e com o branco do rosto

fazem, Marília, um composto

da mais formosa união.

(...)

Aqui tem cabelos loiros:

VIII

(...)

Os teus olhos espalham luz divina,

a quem a luz do sol em vão se atreve;

papoila ou rosa delicada e fina

te cobre as faces, que são cor da neve.

Os teus cabelos são uns fios d’ouro;

teu lindo corpo bálsamos vapora.

(...)

Na lira 64, Gonzaga refere-se a Tiradentes depreciativamente. Parece que as expressões ofensivas com que se dirige ao alferes foram ditadas pelo propósito de minimizar seu comprometimento na Inconfidência, já que o processo ainda estava em curso. É o que argumentam os admiradores do poeta, na tentativa de “salvá­lo” como vulto histórico e inconfidente.

IX

Ama a gente assisada  (1) (1) ajuizada
a honra, a vida, o cabedal tão pouco,
que ponha uma ação destas (2)(2) a Inconfidência
nas mãos dum pobre, sem respeito e louco? (3) (3) Tiradentes
E quando a comissão lhe confiasse,
não tinha pobre soma,
que por paga ou esmola lhe mandasse?

X

O mesmo autor do insulto

mais a riso do que a terror me move;

deu-lhe nesta loucura,

podia-se fazer Netuno ou Jove.

A prudência é tratá-lo por demente;

ou prendê-lo, ou entregá-lo,

para dele zombar a moça gente.

ANÁLISE : Marília de Dirceu por Tomás António Gonzaga

 

O livro é dividido em três partes, cada uma subdividida em liras, ou tomos. Escritos em épocas diferentes, sendo a primeira escrita antes do tempo de aprisionamento de Gonzaga em 1792, a segunda durante o tempo de prisão em 1799, e a terceira, considerada por alguns apócrifa, não tem data específica. Alguns autores creditam-na a 1812, a partir da Impressão Régia.

O livro é sobre um admirador, Dirceu, de uma mulher, Marília, e como o autor a considera. Na verdade é uma retratação dum fato real: Tomás António Gonzaga apaixonara-se por uma mulher, Maria Dorotéa Joaquina de Seixas, após ser exilado em Moçambique, e escreve poemas na qual ele a imagina. Infelizmente acaba por esquecê-la e se casa na nova pátria africana.

Na primeira parte tem-se a adoração, descrição e estipulação da relação entre o autor e a correspondente. São 23 liras de diferentes formas de poesia, métrica e rimas. O autor exibe sinais da característica primária do Arcadismo, o Bucolismo, no qual volta-se às raízes pastoris da cultura. Percebe-se isso primariamente pelo uso de Pastor e Pastora para se relacionar a Dirceu e a Marília. Também temos algumas características pré-românticas, pois temos a idealização da mulher de acordo com padrões europeus. Exemplo (I, 2):

Os seus compridos cabelos,
Que sobre as costas ondeiam,
São que os de Apolo mais belos;
Mas de loura cor não são.
Têm a cor da negra noite;
E com o branco do rosto
Fazem, Marília, um composto
Da mais formosa união.
 

Tem redonda, e lisa testa,
Arqueadas sobrancelhas;
A voz meiga, a vista honesta,
E seus olhos são uns sóis.
Aqui vence Amor ao Céu,
Que no dia luminoso
O Céu tem um Sol formoso,
E o travesso Amor tem dois.
 

Na sua face mimosa,
Marília, estão misturadas
Purpúreas folhas de rosa,
Brancas folhas de jasmim.
Dos rubins mais preciosos
Os seus beiços são formados;
Os seus dentes delicados
São pedaços de marfim.

Aqui percebe-se as características européias da mulher, (pele branca como a neve e lábios bem vermelhos e definidos) que tanto se refere no Romantismo. O Arcadismo é, por muitos, considerado apenas uma transição entre o Barroco e o Romantismo, pois é composto, na maior parte, por aspectos do que se tornaria o Romantismo.
Minha análise da primeira parte se resume em apontar as características árcades (Bucolismo, métrica/rima, ótica mitológica (I, 8)) e as características pré-românticas (idealização da mulher).

Na segunda parte, temos uma maior influência das características pré-românticas, principalmente a tristeza e a chateação (Mal-do-Século). Gonzaga sofre esse Mal-Do-Século por estar longe de sua amada e não poder se relacionar com ela por estar preso. Há a predominância do tempo pretérito imperfeito e do modo subjuntivo, no qual o autor reclama do que não fez antes de ser preso e do que poderia ter feito.

Minha análise da segunda parte resume-se ao apontamento do Mal-Do-Século e da mudança no modo de escrever, pois não há mais a mesma importância com a métrica/rima como na primeira parte.

A terceira parte, como acima mencionado, considerada por muitos apócrifa, não só por não ter data correta de edição, mas também por haver uma parte escrita apenas em sonetos, que não era o estilo de Gonzaga, que mudava o modo de escrever a cada lira. Nesta parte também se percebe o distanciamento de Dirceu com Marília. Talvez por ter encontrado um amor em Moçambique ou pela edição ser realmente apócrifa. Mas de qualquer forma, não se tem mais o Mal-Do-Século nem o Bucolismo. Tem-se as vezes até um pouco de pedantismo ao se referir à ótica mitológica, imitando a primeira parte. (cf. III, 1 e 2).

Minha análise da parte três se resume em concordar com outros autores como sendo apócrifa, pois difere em muitos pontos da poesia de Gonzaga nas duas primeiras partes. No entanto, se realmente for de Gonzaga, pode-se perceber que as características Neo-Classicistas do Arcadismo são proeminentes.

Tendo em vista a primeira parte e a segunda como as principais, pode-se identificar quem, em que época e como foi escrito o livro.

O livro, considerado o ápice do Arcadismo por alguns autores, realmente expõe as principais características transacionais do Arcadismo entre o Barroco e o Romantismo.

Marília de Dirceu - Tomás Antônio Gonzaga

Numa breve introdução ao Neoclassicismo como estilo da época, podemos afirmar que este estilo representa o momento de coesão e revelância da doutrina clássica originada na Renascença e que alcança a sua estruturação perfeita na literatura francesa do século XVII. Do ponto de vista histórico, o século XVIII é o século das luzes, momento em que se desenvolve uma visão científica do mundo.

A ciência e o racionalismo constituem as luzes com que se costuma caracterizar o século. A razão ilumina, ilustra; daí as palavras iluminação e ilustração que caracterizam as manifestações culturais do momento, o conjunto das tendências características. No campo da literatura, o Neoclassicismo representa, nas diversas literaturas européias, uma generalizada reação contra o Barroco, sob o irresistível impulso do pensamento racionalista dominante em toda a Europa a partir do século XVIII.

Como fruto desse iluminismo, um bom exemplo na literatura é a poesia satírica, largamente difundida na época, e de que As Cartas Chilenas podem funcionar como um bom exemplo, na nossa literatura.

Sem nos prendermos à “tirania cronológica” podemos dizer que o Neoclassicismo como estilo de época foi inaugurado, oficialmente, em Portugal, com a criação da Arcádia Lusitana, em 1756, e vai-se prolongar até 1825, quando Garrett publica o poema narrativo de feição romântica, Camões.

No caso do Brasil, há um pequeno atraso com relação às delimitações “oficiais”, sem nenhum critério estritamente literário: o início é marcado pela data de 1768, com a publicação das Obras Poéticas, de Cláudio Manuel da Costa, estendendo-se até 1836, quando se dá a implantação oficial do Romantismo, com os Suspiros Poéticos e Saudades, Marília de Dirceu, a obra de Tomás Antônio de Gonzaga, se enquadra exatamente nesse estilo de época: o Neoclassicismo ou por outros chamado de Arcadismo.

Sua primeira edição, constando apenas da Parte I (23 liras), foi editada em Lisboa, em 1792, saindo a Parte II, também em Lisboa, em 1799. Com relação à Parte III, que muitos julgam apócrifa, Rodrigues Lapa considera autêntica a edição de 1812, da Impressão Régia.

CARACTERÍSTICAS MARCANTES DA OBRA

         1) Uma das mais exploradas características barrocas foi, sem dúvida, a suntuosidade e, de certo modo, a complicação, principalmente da forma exterior (cf. cultismo), além de empanar e perturbar a limpidez e lógica do ideário clássico. Daí o sentido pejorativo que teve o Barroco naquela época.

Um dos postulados básicos de Neoclassicismo é exatamente a reação ao preciosismo e confusão do estilo barroco, ou seja, o Neoclassicismo significou antes de tudo, como a própria palavra explicita, um retorno ao equilíbrio, à simplicidade da linguagem e de idéias da literatura clássica quinhentista e greco-latina.

A imitação dos modelos clássicos volta à tona, e a razão, mais uma vez, tem dias de glória. Esse racionalismo, essa fundamentação racionalista, na literatura configurada na aceitação e volta ao pensamento e cultura clássica, têm confirmação de autores da época, como Filinto Elísio, que aconselhava:

        “         Lede, que é tempo, os clássicos honrados;
         Herdai seus bens, herdai essas conquistas,
         Que em reinos dos romanos e dos gregos
         Com indefeso estudo conseguiram.

         Vereis então que garbo, que facúndia
         Orna o verso gentil quanto sem eles
         É delambido e peco o pobre verso.
         Lede, que é grande cegueira esse descuido.”


Tomás Antônio Gonzaga, como “o mais árcade de nossos árcades” leu “esses clássicos honrados” e se mostra impregnado deles em muitas liras de sua Marília de Dirceu. Aí está a linguagem estereotipada da mitologia, do retrato da mulher ideal que, no fundo, são decorrências do imperativo da razão e da lógica: se um princípio qualquer era válido para os antigos (porventura autoridades do assunto), tinha que sê-lo também para os novos.

Se os antigos usaram uma determinada forma poética e a cultivaram, o mesmo deveriam fazer os novos. Daí a estereotipia de linguagem e também de assunto.
        
Assim, é como poeta integrado no espírito neoclássico e arcádico que Gonzaga, uma das maiores expressões literárias da época, descreve Marília: mulher nívea, de cabelos longos e louros. É assim que Gonzaga descreve Marília na primeira lira da Parte I. Não importava que Marília fosse brasileira e morena, como o poeta a descreverá na lira seguinte (I, 2). Era, talvez, mais importante estar integrado no espírito e convenções do Arcadismo.


         "Os teus olhos espalham luz divina,
         A quem a luz do Sol em vão se atreve;
         Papoula, ou rosa delicada, e fina,
         Te cobre as faces, que são cor de neve.
         Os teus cabelos são uns fios d'ouro;
         Teu lindo corpo bálsamos vapora.
         Ah! não, não fez o Céu, gentil Pastora,
         Para glória de Amor igual tesouro.
                  Graças, Marília bela,
                  Graças à minha Estrela!"

Sem dúvidas, outras descrições idealizadas como esta podem ser notadas no livro. É só ler com atenção e espírito crítico.Mas, como falamos, outro postulado estético, racionalmente aceito na época, era a mitologia. Seria ocioso mostrar os valores e referências mitológicas no livro, dada a presença avassaladora dos deuses do Olimpo, principalmente Cupido com suas setas mortais e Vênus que está sempre cotejada com Marília, a quem esta sempre vence pela beleza divinal:

         "O destro Cupido um dia               Por fazer pensar a todos
         Extraiu mimosas cores                  No seu liso centro escreve
         De frescos lírios,e rosas,              Um letreiro, que pergunta:
         De jasmins, e de outras flores.         'Este espaço a quem se deve?'
        
         Com as mais delgadas penas   Vênus, que viu a pintura,
         Usa de uma, e de outra tinta,         E leu a letra engenhosa,
         E nos ângulos do cobre              Pôs por baixo: 'Eu dele cedo;
         A quatro belezas pinta.              Dê-se a Marília formosa'"

Outro excelente exemplo, em que o poeta perpassa a sua visão do mundo filtrada pela ótica mitológica, é a lira 25 (Parte I).

       2) O Racionalismo é outro elemento decorrente da volta ao passado clássico. Destacamo-lo aqui, dada a sua importância como principal esteio da ideologia neoclássica. Já falamos atrás, da complicação do pensamento, da linguagem, das idéias do estilo barroco.

A esta complicação se opôs a lógica - clara, límpida, cristalina do Neoclassicismo, que se revela pela simplicidade de raciocínio, que é claro e lógico, como se pode entrever na argumentação da Lira VIII (Parte I):

         "Já viste, minha Marília,                   As grandes Deusas do Céu
         Avezinhas, que não façam          Sentem a seta tirana
         Os seus ninhos no verão?               Da amorosa inclinação.
         Aquelas, com quem se enlaçam,         Diana, com ser Diana,
         Não vão cantar-lhes defronte         Não se abrasa, não suspira
         De mole pouso, em que estão? Pelo amor de Endimião?
                  Todos amam: só Marília          Todos amam: só Marília
                  Desta Lei da Natureza                Desta Lei da Natureza
                  Queria ter isenção?            Queria ter isenção?
        
         Se os peixes, Marília, geram         Desiste, Marília bela,
         Nos bravos mares, e rios,          De uma queixa sustentada
         Tudo efeitos de Amor são.               Só na altiva opinião.
         Amam os brutos ímpios,          Esta chama é inspirada
         A serpente venenosa,              Pelo Céu; pois nela assenta
         A onça, o tigre, o leão.          A nossa conservação.
                  Todos amam: só Marília          Todos amam: só Marília
                  Desta Lei da Natureza                Desta Lei da Natureza
                  Queria ter isenção?            Não deve ter isenção."

         3) O Bucolismo na poesia arcádica é também uma decorrência da volta ao passado clássico quinhentista e greco-latino. Fundamentado nos autores bucólicos, o Neoclassicismo fez dessa matéria uma de suas principais temáticas poéticas. A poesia pastoril ou bucólica, sem dúvida, não é apenas um postulado estético a que devia seguir o poeta. Chegou mesmo a representar uma idealização da vida, inclusive, numa tentativa de identificação com os modelos gregos, os poetas arcádicos chegaram a usar nomes de pastores: Gonzaga (Dirceu), Cláudio (Glauceste/Alceste), Basílio da Gama (Termindo Sipílio).

 A própria criação de arcádias (daí o nome Arcadismo para este estilo'de época) mostra muito bem essa idealização da vida campesina.

Mostrar o bucolismo de Marília de Dirceu é demonstrar o óbvio, dado o predomínio quase que total da atmosfera pastoril nas liras, sobretudo na Parte I:

         "Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
         Que viva de guardar alheio gado;
         De tosco trato, d'expressões grosseiro,
         Dos frios gelos, e dos sóis queimado,
         Tenho próprio casal, e nele assisto;
         Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
         Das brancas ovelhinhas tiro o leite,
         E mais as finas lãs, de que me visto.
                  Graças, Marília bela,
                  Graças à minha Estrela!

         Eu vi meu semblante numa fonte,
         Dos anos inda não está cortado:
         Os Pastores, que habitam este monte,
         Respeitam o poder do meu cajado:
         Com tal destreza toco a sanfoninha,
         Que inveja até me tem o próprio Alceste:
         Ao som dela conserto a voz celeste;
         Nem canto letra, que não seja minha.
                  Graças, Marília bela,
                  Graças à minha Estrela!

         Irás divertir-te na floresta,
         Sustentada, Marília, no meu braço;
         Ali descansarei a quente sesta,
         Dormindo um leve sono em teu regaço.
         Enquanto a luta jogam os Pastores,
         E emparelhados correm nas campinas,
         Toucarei teus cabelos de boninas,
         Nos troncos gravarei os teus louvores.
                  Graças, Marília bela,
                  Graças à minha Estrela!" (Lira 1)

         4) Convívio com a Natureza. Aceitando o conceito de arte como imitação da natureza, os autores neoclássicos procuram valorizá-la, recriando-a através de escrições em que era embelezada em seus aspectos considerados apoéticos. A natureza dos árcades era, pois, a verossímil e não a real, de natureza universal e aceita como a ideal. Sem dúvida, o convívio com a natureza se fundamenta numa postura de bastante voga na época: o "fugere urbem" (=fugir da cidade), que é exatamente a busca da simplicidade manifestada através do bucolismo.
 

Muitas vezes, a natureza chega a exercer o papel de confidente, como nos sonetos de Cláudio Manoel da Costa, onde a natureza participa da desventura amorosa do poeta, escutando as suas lágrimas e recolhendo os seus soluços:

         "Grutas, troncos, penhascos da espessura,
         Se o meu bem, se a minha alma em vós se esconde,
         Mostrai, mostrai-me a sua formosura."

Em Gonzaga, se a natureza não exerce o papel de confidente como em Cláudio, está presente de modo avassalador, como cenário dos seus idílios e devaneios amorosos, a ponto de transformar a íngreme e montanhosa Vila Rica em doces e amenos campos de pastagens ("locus amoenus"), onde vivem os pastores e seus rebanhos. A presença da natureza nas liras é uma constante: a natureza verossímil, idealizada - não a verdadeira, como se pode notar na lira 5 (I):

         "Aqui um regato                       Mas como discorro?
         Corria sereno                   Acaso podia
         Por margens cobertas                Já tudo mudar-se
         De flores, e feno:                            No espaço de um dia?
         A esquerda se erguia          Existem as fontes,
         Um bosque fechado,                E os feixos copados;
         E o tempo apressado,             Dão flores os prados,
         Que nada respeita,                  E corre a cascata,
         Já tudo mudou.                           Que nunca secou.
                  São estes os sítios?          São estes os sítios?
                  São estes; mas eu                            São estes; mas eu
                  O mesmo não sou.             O mesmo não sou.
                  Marília, tu chamas?             Marília, tu chamas?
                  Espera, que eu vou             Espera, que eu vou."

         5) Manifestações Pré-Românticas. É fato incontestável o caráter transitório do Arcadismo ou Neoclassicismo, principalmente com poetas da categoria de um Bocage ou de um Gonzaga. Assim, "ao mesmo tempo que se busca o primado absoluto da razão, cultiva-se o sentimento, a sensibilidade, o irracionalismo" (Afrânio Coutinho) - características tipicamente românticas. Vimos atrás o retrato estereotipado de Marília. Vejamos agora como o poeta se desprende dos clichês e convenções arcádicas, numa visível atitude romântica (I, 2):

         "Pintam, Marília, os Poetas          Porém eu, Marília, nego,
         A um menino vendado,                Que assim seja Amor; pois ele
         Com uma aljava de setas          Nem é moço, nem é cego,
         Arco empunhado na mão;            Nem setas, nem asas tem.
         Ligeiras asas nos ombros,                 Ora, pois, eu vou formar-lhe
         O tenro corpo despido,                 Um retrato mais perfeito
         E de Amor, ou de Cupido          Que ele já feriu meu peito;
         São os nomes, que lhe dão.                 Por isso o conheço bem."

E o que dizer do tom confessional e plangente, da sensibilidade e emoção, da cor local existente em muitas liras do livro? - Sem dúvida, são características decisivamente românticas. É o Romantismo que está chegando. Não se pode, absolutamente, dizer que o poeta está preso às limitações neoclássicas. As asas da imaginação e da liberdade criadora estavam nascendo! Com mais um pouco, o poeta estaria navegando por esferas nunca dantes navegadas: a esfera do sonho e da imaginação; da emoção e do subjetivismo, que se revelam sobretudo na Parte II, onde Gonzaga vai se libertando de Dirceu e chega mesmo a predominar sobre Marília.

Assim, concluindo, podemos dizer que a poesia neoclássica em Gonzaga "apresenta duas faces contrastantes e complementares: quando imita os moldes clássicos e quinhentistas, é arcádica propriamente dita, ou neoclássica; quando reflete as novas inquietações que preparavam a eclosão do Romantismo, é pré-romântica " (Massaud Moisés).

O ESTILO DE GONZAGA NAS LIRAS

No prefácio à Marília de Dirceu (Lisboa, 1957), Rodrigues Lapa, comentando o estilo de Gonzaga, afirma que "não é a persistência dos elementos tradicionais da poesia, mais ou menos pessoalmente elaborados, que nos dão definitivamente o seu estilo. Este consiste sobretudo nas novidades sentimentais e concepcionais que trouxe para uma literatura, derrancada no esforço de remoer sem cessar a antiguidade. Um amor sincero, na idade em que o homem sente fugir-lhe o ardor da mocidade, e uma prisão injusta e brutal - foram estas duas experiências que fizeram desferir à lira de Dirceu acentos novos.

Estamos ainda convencidos de que o clima americano, mais arejado e mais forte, contribuiu poderosamente para a revelação desse estilo, em que se sentem já nitidamente os primeiros rebates do romantismo e a impressão iniludível das idéias do tempo."Partindo daqui, podemos apontar três fatores básicos que contribuíram para a individualidade poética de Gonzaga: o romance com a menina Maria Dorotéia; a prisão injusta e brutal, como inconfidente; e a magia da natureza e do clima tropical.

Aqui vale ressaltar também a influência de Cláudio Manoel da Costa (Glauceste ou Alceste, nas liras) a quem o poeta devotava grande amizade e admiração, e que Antônio Cândido defende como elemento fundamental na criação das liras gonzagueanas: "sem Dorotéia e sem Cláudio não teríamos a sua obra" - a primeira como fonte de inspiração: "o amor"; o segundo como elemento policiador de seus versos: "a técnica".

A presença de Maria Dorotéia Joaquina de Seixas - sob o nome pastoril de Marília - é fato insofismável; o lirismo amoroso e idílico tecido à volta de uma experiência concreta - a paixão, o noivado, a separação - é igualmente fato inegável e insofismável: o tema do livro é, pois, Marília, sinônimo de Amor - fonte inspiradora do poeta, quer como mulher física e concretamente sentida, quer como uma vaga pastorinha - objeto ideal de poesia que vai e vem como peteca: por isso mesmo, ora é loura, ora morena, como já vimos.

Ademais, sob essa mesma Marília, sentida de carne e osso (cf. I, 14 outras) ou idealizada como esposa dedicada e firme (cf. II, 4), podem esconder pedaços de Lauras, Nises ou Elviras, como revela a Lira 5 da Parte III (confronte-se com I, 1).

Assim, negar a presença física e concreta de Maria Dorotéia nas liras é incorrer em tão grasso engano quanto negar a presença da pastora Marília: ambas têm um lugar ao sol nas liras, assim como têm presença garantida no livro o poeta ouvidor Tomás Antônio Gonzaga e o pastor Dirceu.

A influência de Cláudio Manuel da Costa nas liras é fato que Antônio Cândido defende com fortes argumentos. Com efeito, há diversas referências nas liras e Cláudio (Glauceste ou Alceste) como:

a)     elogiando-o pela sua posição que considerava superior (I, 31):

                  "Porém que importa
                  não valhas nada
                  seres cantada
                  do teu Dirceu?
                  Tu tens, Marília,
                  cantor celeste;
                  o meu Glauceste
                  a voz ergueu:
                  irá teu nome
                  aos fins da terra
                  e ao mesmo Céu."

         b) na lira 1 (I), onde traça o próprio perfil, manifesta o orgulho de ser admirado pelo "poeta das lágrimas tristes":

                  "Com tal destreza toco a sanfoninha
                  que inveja até me tem o próprio Alceste."

         c) comovente a bela é também a amizade que unia os dois poetas, como se pode ver na lira 12 (II):

                  "Quando passar pela rua
                  o meu companheiro honrado,
                  sem que me vejas com ele
                  caminhar emparelhado,
                  tu dirás: Não foi tirana
                  somente comigo a sorte;
                  também cortou desumana
                  a mais fiel união."

O mais curioso dessa amizade, como observa Rodrigues Lapa, "é que Cláudio Manuel da Costa, ao tempo que Gonzaga escrevia estes versos (na prisão), estava denunciando o amigo como comprometido na conjura!"

Segundo ainda Antônio Cândido esta amizade contribuiu grandemente para a individualidade e naturalidade do estilo de Gonzaga: "Mais notável se torna o calor dessa fraternidade sem ciúmes, se repararmos que Gonzaga vinha de certo modo superar a obra de Cláudio, trazendo à literatura luso-brasileira um tom moderno dentro do Arcadismo, deslocando para um plano mais individual e espontâneo a naturalidade, que na geração anterior ainda é quase acadêmica.

" Assim, Cláudio nem combatia nem rejeitava essas manifestações, espontâneas e inovadoras. "Pelo contrário, emenda os versos do amigo, certamente entusiasmado e rejuvenescido pelo seu cristalino frescor; e, quem sabe, sentindo neles a conseqüência natural da reforma que ajudara a empreender, trinta anos antes, em busca da naturalidade."

A "prisão brutal e injusta" contribuiu, igualmente, conforme Rodrigues Lapa, para novos acentos, singulares tonalidades da poesia gonzagueana: amargurado pela incompreensão e injustiça dos homens, a poesia de Gonzaga expressa a dura realidade circundante. Traduz o estado de espírito do tempo que passou na prisão. Para abrandar o seu martírio apenas uma realidade existe: a doce lembrança de Marília.

Colocado face a face com a realidade brutal, ganha a sua poesia novos acentos, maior autenticidade, dissipando-se, em parte, aquele idealismo e convencionalismo dominante na Parte I. E assim, pelo tom confessional e plangente, pela presença de saudade, ganha a sua poesia maior dose de individualidade e naturalidade, podendo muitas liras ser arroladas no pré-romantismo, como estes versos da lira 2, (II):

         "Eu tenho um coração maior que o mundo,
         tu, formosa Marília, bem o sabes:
                  Um coração, e basta,
                  onde tu mesma cabes."

Nascido em Portugal (Porto), o luso-brasileiro Gonzaga não poderia ficar indiferente à paisagem brasileira. Na sua poesia, a natureza tem presença garantida, como já ressaltamos, desde a cor local da famosa lira 3, (III), até a visão que revela "um estado de alma", ainda de "inspiração puramente romântica" como se pode notar na lira 5, (I):

         "Os sítios formosos,
         que já me agradaram,
         ah! não se mudaram;
         mudaram-se os olhos,
         de triste que estou.
                  São estes os sítios?
                  São estes, mas eu
                  o mesmo não sou.
                  Marilia, tu chamas!
                  Espera, que eu vou."

Ainda com relação ao estilo de Gonzaga, podemos notar a presença de alguns aspectos lingüísticos que sobressaem nas suas liras, como a predileção por certas palavras ("beiço" para "lábios", "discurso" para "juízo", "inteligência" etc.); inversões ("são que os de Apolo mais belos"); a repetição de vocábulos, numa técnica superlativa sui-generis, como:

         "Ah! enquanto os destinos impiedosos
         não voltam contra nós a face irada,
         façamos, sim, façamos, doce amada,
         os nossos breves dias mais ditosos."

         E assim em muitas outras passagens.


ESTRUTURA DAS LIRAS DE GONZAGA

Com relação à estrutura das liras gonzagueanas, podemos dizer que se distribuem por duas partes, visto ser a terceira constituída de composições que pertencem à primeira ou segunda partes, além de trazer outras espécies literárias que estão fora do objeto do nosso estudo: os sonetos e as odes.

Parte I. Na primeira parte (anterior à prisão) mostra-se o poeta cheio de esperanças, fazendo projetos conjugais, defendendo o ideal de vida burguês. De um modo geral, predomina o convencionalismo arcádico, embora possamos já constatar a presença de manifestações pré-românticas que se acentuarão na Parte II. Aí, com efeito, se constata mais intensamente a presença da mitologia, do bucolismo, da imitação, do racionalismo - postulados estéticos caracterizantemente arcádicos e neoclássicos.

Nesta primeira fase, conforme Antônio Cândido, "denota preferência pelo verso leve, tratado com facilidade", como revela essa odezinha de sabor anacreôntico (I, 4):

         "Se alguém te louvava,                 Se estavas alegre,
         De gosto me enchia;                           Dirceu se alegrava;
         Mas sempre o ciúme                    Se estavas sentida,
         No rosto acendia                   Dirceu suspirava
         Um vivo calor                                  À força da dor.
                  Marília, escuta                   Marília, escuta
                  Um triste Pastor.                   Um triste Pastor."

Parte II. A segunda parte das liras traz a marca dos dias de masmorra, longe de sua pastora e de seu rebanho, curtindo a amargura da prisão. Daí o caráter nitidamente pré-romântico que perpassa as diversas liras que a constituem e que nos lembra Casimiro de Abreu, posteriormente, com sua poesia da saudade.

A dimensão onírica de que está impregnada esta segunda parte é outro elemento decisivamente pré-romântico: o poeta vive de sonhos ou do tempo passado. Veja-se neste sentido a lira 9, onde conclui o poeta:

         "Assim vivia...
         Hoje os suspiros
         O canto mudo;
         Assim, Marília,
         Se acaba tudo."

É curioso observar na Parte II o emprego do verbo no passado: o poeta vive de lembranças e recordações passadas. A realidade que o cerca é o mal presente. É interessante observar, neste sentido, a lira 15, onde o poeta revive o mesmo ambiente bucólico que envolve a lira 1, (I) - do bem passado. Mas note-se que o poeta jamais perde a esperança de rever Marília, de reconstruir tudo - porque crê na sua inocência:

         "Ah! minha Bela; se a Fortuna volta,
         Se o bem, que já perdi, alcanço, e provo;
         Por essas brancas mãos, por essa faces
         Te juro renascer um homem novo;
         Romper a nuvem, que os meus olhos cerra,
         Amar no Céu a Jove, e a ti na terra."

Enfim, é ocioso ressaltar as recordações do bem passado e a brutal realidade do mal presente. As primeiras, o poeta as revive oniricamente, a segunda, embora sempre esperançoso, levava o poeta, muitas vezes, à revolta (II, 16):

         "A quanto chega
         A pena forte!
         Pesa-me a vida,
         Desejo a morte,
         A Jove acuso,
         Maldigo a sorte,
         Trato a Cupido
         Por um traidor.
         Eu já não sofro
         A viva dor."

 Do ponto de vista técnico, é preciso que se ressalte aqui também a estrutura métrica das liras. Conforme observa Cavalcânti Proença, "a versificação é pouco variada e, a par dos versos de quatro sílabas, melhor ditos células métricas, vêm a redondilha menor, com acentuação na 2.ª e 5ª sílabas; o heróico quebrado, sempre em combinação; a redondilha maior; o decassílabo."

Assim, exemplificando, temos:

a) tetrassílabo (quatro sílabas):
                  "A/mi/nha a/ma/da
                  É/mais/for/mo/sa,
                  Que/bran/co/lí/rio
                  Do/bra/da/ro/sa"

b) pentassílabo ou redondilha menor (cinco sílabas):
                  "Mal/vi/o/teu/ros/to,
                  O/san/gue/ge/lou/-se,
                  A/lín/gua/pren/deu/-se,
                  Tre/mi,/e/mu/dou/-se,
                  Das/fa/ces/a/cor"

c) heptassílabo ou redondilha maior (sete sílabas):
                  "Tem/re/don/da e/li/sa/tes/ta
                  Ar/que/a/das/so/bran/ce/lhas
                  A/voz/mei/ga a/vis/ta ho/nes/ta
                  E/seus/o/lhos/são/uns/sóis"

d) decassílabo (dez sílabas) com heróico quebrado ou hexassílabo (seis sílabas):
                  "É/cer/to/mi/nha a/ma/da/sim/é/cer/to
                  Qu'eu/as/pi/ra/va/va a/ser/de um/ce/tro/o/do/no;
                  Mas/es/te/gran/de im/pé/rio/que eu/fir/ma/va
                            Ti/nha em/teu/pei/to o/tro/no"




PRESENÇAS MARCANTES NAS LIRAS

Vamos tentar esboçar aqui o retrato e caracteres de algumas figuras que transparecem nas liras de Gonzaga, catalisadas pela pastora Marília (Maria Dorotéia Joaquina de Seixas) e o pastor Dirceu (Tomás Antônio Gonzaga), além de outro pastor Glauceste ou Alceste (Cláudio Manuel da Costa) que reponta aqui e ali nas liras, como já ressaltamos.

a) Maria Dorotéia Joaquina de Seixas (Marília). Já falamos de Marília ao longo deste comentário. Parece-nos que ficou claro o retrato de Marília (figura vaga, sem existência concreta - objeto ideal de poesia) e o de Maria Dorotéia (amada de Gonzaga, menininha de 17 anos que faz o poeta quarentão vibrar, como na Lira 14 (I)) e outras. Além de outras indicações, veja-se a lira 2 (I), que traça o perfil da amada do poeta.

b) Tomás Antônio Gonzaga (Dirceu). Sem dúvida, pode-se afirmar que as liras são a expressão do "eu" do poeta, onde se revela altivo e apaixonado. Fala com naturalidade e abundância da sua inteligência, posição social, prestígio, habilidades (cf. I, 1). Preocupa-se com a aparência física e a erosão da idade (cf. I, 14 e 18); com o conforto, futuro, planos, glória (cf. II, 15) etc. A esse propósito, Antônio Cândido observa que "talvez a circunstância de namorar uma adolescente rica (ele, pobre e quarentão) tenha exarcebado essa tendência, que seria além disso exibicionismo compreensível de homem apaixonado."

Por outro lado, impressionam a firmeza e a sabedoria reveladas nas liras da prisão: "nenhum momento de desmoralização ou renúncia; sempre a certeza da sua valia, a confiança nas próprias forças". É o pastor Dirceu que se "despastoraliza", tornando-se cada vez mais o poeta Tomás Antônio Gonzaga, que se exterioriza e que confia na sua inocência.

c) Cláudio Manuel da Costa (Glauceste ou Alceste). Já vimos a presença de Cláudio nas liras e a amizade que unia os dois poetas, em que se nota também a admiração que Gonzaga nutria pelo poeta mais velho. Outra referência a Cláudio pode-se ver na lira 7 (II), onde Gonzaga parece ignorar a prisão e morte do grande amigo.
d) Na lira 38 (II), onde Gonzaga faz a justificação da sua inocência, há uma alusão a Tiradentes, cabeça da conjuração, que era tido por todos como alucinado:

                  "Ama a gente assisada
         A honra, a vida, o cabedal tão pouco,
                  Que ponha uma ação destas
         Nas mãos dum pobre, sem respeito e louco?"

A lira 23 (II) é um elogio ao Visconde de Barbacena, governador de Minas, destinada a captar-lhe a benevolência. O visconde foi quem mandou prender Gonzaga mas fora-lhe um dos amigos mais caros.
  


Na poesia árcade o poeta tem a preocupação constante em nos passar com o tema, a busca pela clareza, simplicidade e equilíbrio. Para isso usa como pano de fundo a natureza e o sentimento bucólico.

A cultura grega tem papel importantíssimo, pois dela ele serve-se em muitos casos e faz-se necessário sua compreensão para melhor entender a passagem em liras do poema “Marília de Dirceu”, que reflete a visão estereotipada da mitologia, retratando a mulher ideal, em que no próprio nome “Marília” já vemos a junção de dois termos: mar e ilha, ou seja a beleza e poder buscada pelos gregos através de ilhas e mares. Dirceu nos lembra os grandes conquistadores e desbravadores gregos.

“Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,”
Que viva de guardar alheio gado;

Neste verso o eu-lírico se dirige à mulher da maneira informal apresentando-se e se auto afirmando ao usar o pronome pessoal “eu” e o possessivo “sou” .

Já o pronome indefinido “algum” nos leva a pensar que ele é alguém bem mais que um simples vaqueiro que cuida de gado alheio, ele afirma ter seu próprio rebanho. E os termos “vaqueiro”, “viva” “gado” nos lembra a simplicidade e bucolismo da aurea mediocritis , é um traço da poesia horaciana, que idealizava a vida no campo, vivendo sem luxos.

“De tosco trato, d’ expressões grosseiro,
Dos frios gelos, e dos sóis queimado.
Tenho próprio casal, e nele assisto;”

O eu-lirico vem nos mostrar que preocupa-se com a aparência e suas expressões são finas, é vaidoso como homem burguês, mas conhece o campo como o camponês. Possui e afirma dar muita importância a seus bens materiais com o termo “tenho próprio casal” tem orgulho em possuir casa própria

“Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
Das brancas ovelhinhas tiro o leite,
E mais as finas lãs, de que me visto.”

A fartura que o abastece é também rica, fina em especiarias não comuns ao camponês e sim ao homem bem colocado na sociedade. É o ideal burguês presente na fala do poeta., o orgulho em poder se sustentar e aos demais de sua casa com seu próprio ganho.

“Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!”

Com estes versos ele nos afirma ter tudo que possui graças à sorte, esses versos terão efeito minimônico no decorrer de tudo a lira.

“Eu vi o meu semblante numa fonte,
Dos anos inda não está cortado:”

Aqui percebe-se o retorno à mitologia grega com a lembrança do mito de Narciso, que se envaidecia ao se ver refletido na água. O eu-lírico também se olhar e se admira por ainda não possuir rugas apesar de ser mais velho que a jovem Marília.

“Os pastores, que habitam este monte,
respeitam o poder do meu cajado”

Ele novamente mostra-nos seu poder diante dos demais habitantes da região, tem mais poder e é respeitado como tal.

“Com tal destreza toco a sanfoninha,
Que inveja até me tem o próprio Alceste:
Ao som dela concerto a voz celeste;
Nem canto letra, que não seja minha,”

Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!

O eu –lirico orgulha-se e diz ser admirado pelo próprio grego poeta das lágrimas tristes. E diz ainda que suas letras não de própria autoria, negando assim que esteja fazendo cópia de alguma obra literária.

“Mas tendo tantos dotes da ventura,
Só apreço lhes dou, gentil Pastora,”

Aqui ele a pede em casamento, pois já pode, já possui bens necessários.

“Depois que teu afeto me segura,
Que queres do que tenho ser senhora.
É bom, minha Marília, é bom ser dono”

O eu-lírico nos mostra que o querer bem é importante e vem em primeiro plano, mas possuir bens agrada também.

“É bom, minha Marília, é bom ser dono”
De um rebanho, que cubra monte, e prado;”

Reafirma ser capitalista, estar interessado na segurança que o poder econômico lhes trarão.

“Porém, gentil Pastora, o teu agrado
Vale mais q’um rebanho, e mais q’um trono.
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!”

Observamos que o eu-lírico coloca nestes versos um toque de romantismo ao usar a conjunção “porém” que dá idéia de adversidade, ou seja , nem tudo parece ser como é , existe para ele o amor que é muito mais importante que tudo isso. E ele faz questão de mostrar isso à amada, substituindo os bens materiais, pelo amor que tem por ela.

“Os teus olhos espalham luz divina,
A quem a luz do Sol em vão se atreve:
Papoula, ou rosa delicada, e fina,
Te cobre as faces, que são cor de neve.
Os teus cabelos são uns fios d’ouro;
Teu lindo corpo bálsamos vapora.
Ah! Não, não fez o Céu, gentil Pastora,
Para glória de Amor igual tesouro.
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!”

A idealização da mulher para o eu-lírico é essencial, assim as sensações imediatas são muito importantes para a conquista, pois ela ficará fascinada com palavras que a valorizem. Ele usa um excesso de metáforas ao longo de toda a extrofe.

Comparando-a com “luz divina”, “sol”, “rosa” “neve” “ouro” “balsamo”, tesouro” ou seja, tudo que uma mulher gosta, ser admirada e comparada à coisas boas e belas.

“Leve-me a sementeira muito embora
O rio sobre os campos levantado:
Acabe, acabe a peste matadora,
Sem deixar uma rês, o nédio gado.
Já destes bens, Marília, não preciso:
Nem me cega a paixão, que o mundo arrasta;
Para viver feliz, Marília, basta
Que os olhos movas, e me dês um riso.
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!”

Todo a estrofe reflete a fugere urbem, pois o eu lírico raciocina e nos mostra que é possível ter uma vida simples no campo, longe de toda complicação da cidade, ele consegue mostrar-se para a amada sendo racional ao usar a conjunção aditiva “nem” para dizer que apesar de não se importar tanto com os bens ele também não ela não deixa se levar pela cegueira da paixão avassaladora que sente por ela. E quer apenas como retribuição a esse amor um “riso”.

“Irás a divertir-te na floresta,
Sustentada, Marília, no meu braço;
Ali descansarei a quente sesta,
Dormindo um leve sono em teu regaço:”

Enquanto a luta jogam os Pastores,
E emparelhados correm nas campinas,
Toucarei teus cabelos de boninas,
Nos troncos gravarei os teus louvores.
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!”

A amada terá uma vida plena, feliz, aconchegante e protegida de tudo, se ficar com ele e acalenta-lo, aí vemos o locus amoenos, desejado pelo eu lírico.

“Depois de nos ferir a mão da morte,
Ou seja neste monte, ou noutra serra,
Nossos corpos terão, terão a sorte
De consumir os dois a mesma terra.
Na campa, rodeada de ciprestes,
Lerão estas palavras os Pastores:
"Quem quiser ser feliz nos seus amores,
Siga os exemplos, que nos deram estes."

Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!

Faz projetos para o futuro, que estarão juntos até a morte. E sugere até o que deve ficar escrito na lápide de seus túmulos. Termina por nos dizer que sua amada é bela, e que por isso tem sorte.