terça-feira, 19 de abril de 2011

Arte Medieval - Arte Paleocristã


"No decurso dos dez séculos (...) [sécs. V a XV - Idade Média], a Europa ganhou forma... E foi então que nasceu e floresceu uma arte propriamente europeia. Hoje admiramos o que dela resta. No entanto, não consideramos essas formas com o mesmo olhar que aqueles que primeiro as viram. Para nós, são obras de arte e delas esperamos apenas (...) um prazer estético. Para eles estes monumentos, estes objectos, estas imagens eram antes de mais nada funcionais. Serviam. (...) Desempenhavam três funções principais.

A maioria eram presentes oferecidos a Deus, para O louvar, dar-lhe graças, para obter em contrapartida a Sua indulgência e os Seus favores. (...) O essencial da criação artística desenvolvia-se então em torno do altar, do oratório, do túmulo. Esta função de sacrifício justificava que se dedicasse uma grande parte da riqueza produzida pelo trabalho dos homens a embelezar esses locais. (...)
Na sua maior parte, estes monumentos, estes objectos, estas imagens serviam também de mediadores, favorecendo a comunicação com o outro mundo (...). Estavam ali para tornar o ritual das liturgias numa correspondência mais estreita com as perfeições do Além (...), para guiar a meditação dos devotos, para conduzir-lhes o espírito per visibilia ad invisibilia, como diz São Paulo. Condescendentes, os homens de saber atribuíam-lhes, além disso, uma função pedagógica mais vulgar. (...)
Finalmente - e esta terceira função ligava-se com a primeira -, a obra de arte era uma afirmação de poder. Celebrava o poder de Deus, dos seus servidores, dos chefes de guerra, dos ricos. (...) Por isso, nas suas formas maiores, a criação artística, nessa época como em todos os tempos, desenvolvia-se nos lugares onde se concentravam o poder e os benefícios do poder."
Georges Duby, História Artística da Europa, A Idade Média, Tomo I, Quetzal Editores

 
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Glossário introdutório:

Afresco : Arte ou método de pintura mural que consiste em aplicar cores diluídas em água sobre um revestimento de argamassa ainda fresco, de modo a facilitar o embebimento da tinta.
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Iluminura: Desenho, miniatura, grafismo que ornamenta livros.

Catacumbas: Conjunto de galerias e salas escavadas no subsolo para sepultamentos, especialmente as construídas pelos cristãos, em Roma, do século 1 ao século 4, talvez também usadas como lugar de culto, catequese e refúgio às perseguições.
A Arte Paleocristã foi o conjunto de manifestações artísticas dos primeiros cristãos, que decorreram aproximadamente entre o ano 200 e o séc. VI da Era Cristã, correspondendo ao período de expansão do Cristianismo.
- A extraordinária dispersão geográfica desta arte forneceu-lhe uma grande diversidade regional, mas, no entanto, não impediu a subsistência de traços estruturais comuns:
  • a utilização dos modelos estilísticos da Roma clássica;
  • o uso de novas formas técnicas e estéticas oriundas das zonas periféricas do império, sobretudo das províncias do Oriente;
  • a subordinação a um novo espírito e a uma nova temática: a do Cristianismo que impôs uma iconografia retirada das Sagradas Escrituras e um sentido doutrinal e pastoral às artes decorativas.

A ARQUITETURA

- Na arquitectura, a grande preocupação foi a procura de uma tipologia para o templo cristão, que adoptaria duas funções: ser a morada de Deus e recinto de culto e um local de encontro e reunião da comunidade dos fiéis, impondo assim novas exigências funcionais e de espaço.
- As primeiras igrejas da arte paleocristã obedeceram dois modelos principais: o de planta basilical, em cruz latina, com três ou cinco naves separadas por arcadas e/ou colunatas e cobertas por tectos de armação de madeira; e o de planta centrada, de influência helenística e oriental, com formas circulares, octogonais ou em cruz grega, e coberturas em cúpula e meias cúpulas. Em ambos os modelos sobressai a preocupação em destacar as linhas cruciformes (em forma de cruz), cuja simbologia se havia já começado a definir.


 
Aspecto da antiga Basílica de São Pedro do Vaticano, Roma, 324


Igreja de Santa Balbina

 
- Os baptistérios (edifícios sagrados destinados à celebração do baptismo), tal como os mausoléus (túmulos), adoptaram a planta centrada, com uma das portas orientada a leste e outra a poente, com enormes cúpulas sobre a sala central.
Mausoléu de Santa Constança, Roma, 354

 
- As primitivas igrejas cristãs eram exteriormente pobres e muito austeras e interiormente possuíam uma decoração pictórica, a fresco ou em mosaicos, de belas e vivas cores. O seu modelo mais característico foi o de planta basilical de três naves, que só se impôs como dominante a partir do séc. V, no Ocidente, influenciando toda a evolução artística seguinte, até ao Românico.
A PINTURA

- A pintura paleocristã foi uma das etapas mais importantes para a formação e definição da arte cristã do Ocidente Medieval.
- Iniciada nas catacumbas (onde as pinturas eram mais pobres e simples - falta de rigor anatómico e menor naturalismo; pouca variação cromática, com uso predominante do vermelho e do verde e muito raramente do azul), passou rapidamente a ser utilizada na decoração dos interiores das igrejas, usando frescos de cores suaves, cuja temática misturava o sagrado (principalmente episódios do Novo Testamento - baptismo de Cristo, Cristo Bom Pastor, Cristo rodeado pelos Apóstolos ou pelos quatro Evangelistas e Cristo em ascensão) com elementos decorativos vegetalistas, delimitados por linhas geométricas de cor.

 

Pinturas paleocristãs das catacumbas - "O Peixe", simbolo do nome de Cristo e "O Cristo Bom Pastor", respectivamente


"Maria amamentando o Menino Jesus", pintura do séc. II, Catacumba de Priscila, Roma
- As composições eram planas e lineares, sem qualquer noção de perspectiva; as figuras eram simplificadas, com gestos formais e simbólicos e a expressão dos rostos era dada através dos olhos grandes e olhar penetrante.

"O Bom Pastor", mausoléu de Galla Placidia, Ravena, Itália, séc. V

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